Missa Tridentina em Manaus

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Septuagésima

No Rito Romano Tradicional, o tempo da Septuagésima é um tempo penitencial que compreende as três semanas imediatamente anteriores à Quaresma. A Septuagésima forma uma das principais divisões do ano litúrgico e é ela mesma dividida em três partes, nomeadas a partir da sua referência numérica em relação à Quaresma, que, na linguagem da Igreja, é chamada de Quadragésima, isto é, Quarenta, uma vez que a grande festa da Páscoa é preparada por santos exercícios de Quarenta Dias. As palavras QuinquagésimaSexagésima e Septuagésima nos lembram da mesma grande Solenidade que são objetos pelos quais a Igreja nos leva agora a direcionar nossos pensamentos, desejos e devoções.

A festa da Páscoa precisa ser preparada por quarenta dias de recolhimento e penitência. Estes quarenta dias são um dos principais tempos do ano litúrgico e um dos principais meios empregados pela Igreja para inflamar o coração de seus filhos à sua vocação cristã. É de máxima importância que um tempo como este de penitência produza efeitos em nossas almas – a regeneração de toda uma vida espiritual. A Igreja, portanto, instituiu a preparação para o santo período da Quaresma.

A Igreja nos deu as três semanas da Septuagésima, durante as quais nos afasta, na medida do possível, das distrações e ruídos do mundo, a fim de que nossos corações estejam mais prontamente impressionados pelo chamado solene que nos dá no começo da Quaresma, quando nos marca a fronte com cinzas.

 

História da Septuagésima

Este prelúdio ao santo período da Quaresma não era conhecido nos primeiros séculos do Cristianismo: sua instituição teria sido na Igreja Grega. A prática desta Igreja de nunca fazer jejum aos domingos, o número de dias de penitência na quaresma, em contrapartida aos seis domingos da Quaresma (nos quais por costume universal os fiéis não jejuam) e aos seis sábados, os quais os gregos não observavam como dias de jejum, fazia com que o período de Quaresma ficasse doze dias mais curto do que os quarenta dias de penitência que Nosso Senhor passou no deserto. Para corrigir a diferença, eles eram obrigados a iniciar a Quaresma dias antes.

A Igreja Latina não tinha motivo para antecipar este tempo de penitências que pertence à Quaresma, uma vez que desde a antiguidade a Igreja mantinha os sábados da Quaresma como dias de penitência. Por fim do século VI, São Gregório Magno alude, em uma de suas homilias, ao fato de os dias de penitência da Quaresma serem menos de quarenta dias, por conta dos domingos dentro da Quaresma. “Existem, desde este dia (o primeiro domingo da Quaresma) até à feliz festa da Páscoa, seis semanas, isto é, quarenta e dois dias. Como não jejuamos nos seis domingos, restam apenas trinta e seis dias de penitência.” 1

Foi, portanto, após o pontificado de São Gregório Magno que os últimos quatro dias da Quinquagésima foram adicionados à Quaresma, de modo que os dias de penitência sejam exatamente quarenta. O costume, entretanto, de iniciar a Quaresma na Quarta-Feira de Cinzas era obrigação em toda a Igreja Latina a partir do século IX.

Foi, portanto, pela antecipação da Quaresma em quatro dias que a Igreja Latina deu os exatos quarenta dias a este santo período, os quais foram instituídos em imitação aos quarenta dias que Nosso Senhor passou no deserto. A definição deste período já prevalece por mais de mil anos. Seu nome Septuagesima, expressa, como já esclarecido, uma relação numérica com a Quadragesima (os quarenta dias). Entretanto, na verdade, não são setenta dias, mas apenas sessenta e três dias desde o domingo da Septuagésima até a Páscoa.

 

O Mistério da Septuagésima

Este período no qual estamos entrando é carregado de profundos mistérios. Mas esses mistérios não pertencem somente às três semanas preparatórias para a Quaresma, senão também para todo o período que nos separa da grande festa da Páscoa.

O número sete é a base de todos esses mistérios. Santo Agostinho nos esclarece o meio para entendermos os mistérios deste período: “Existem dois tempos, aquele que é agora, passado em tentações e tribulações desta vida; o segundo que virá, que será passado em eterna segurança e júbilo. Em referência a esses tempos, celebramos dois períodos: o tempo ‘antes da Páscoa’ e o período ‘depois da Páscoa’. Este período antes da Páscoa significa as tristezas da vida presente; o período que é após a Páscoa representa as bem-aventuranças de nosso futuro estado. Por isso, passamos o primeiro em penitência e oração, enquanto no segundo deixamos a penitência e nos damos em louvores.

A Igreja, intérprete das Sagradas Escrituras, frequentemente nos fala de dois lugares, que correspondem a esses dois tempos descritos por Santo Agostinho. Esses dois lugares são a Babilônia e Jerusalém. Babilônia é imagem deste mundo de pecados, no meio do qual o cristão deve passar seu período probatório. Jerusalém é a pátria celeste, onde o cristão deverá repousar após todos os seus sofrimentos. O povo de Israel, cuja história é uma representação de toda a raça humana, foi banido de Jerusalém e mantido em cativeiro na Babilônia.

Este cativeiro, no qual os israelitas passaram exilados de Sião, durou setenta anos. E é para expressar esse mistério, de acordo com os maiores liturgistas, que a Igreja fixou o número setenta para os dias de penitência. É certo que são apenas sessenta e três dias entre a Septuagésima e a Páscoa, mas a Igreja usa, de acordo com o estilo tão continuamente usado nas Sagradas Escrituras, o número arredondado ao invés do número literal e preciso.

 

 

A duração do mundo, de acordo com a antiga tradição católica, é dividida em sete eras. A raça humana precisa passar por sete eras antes da aurora da vida eterna. A primeira era compreende o tempo da criação de Adão até Noé; a segunda começa com Noé e a regeneração da terra pelo dilúvio e termina com a vocação de Abraão; a terceira inicia com a primeira formação do povo escolhido de Deus e continua até Moisés, através de quem Deus fez conhecer a Lei; a quarta consiste no período entre Moisés e Davi, na figura de quem a tribo de Judá recebeu o poder real; a quinta é formada dos anos entre o reinado de Davi e o cativeiro da Babilônia, inclusive; a sexta data do retorno dos judeus para Jerusalém até o nascimento de Nosso Senhor. Então, finalmente, inicia a sétima era, com a vinda de Nosso Senhor, o Sol da Justiça, e continua até o tremendo juízo dos vivos e dos mortos. Estas são as sete divisões do tempo, depois delas, a eternidade.

Com o intuito de nos consolar neste combate que fortemente nos assola, a Igreja – como um farol no meio da escuridão desta estadia terrestre – nos mostra outros Sete, para nos suceder ao que estamos nos preparando para passar. Após a Septuagésima de penitência, teremos o brilho da Páscoa com suas Sete semanas de júbilo, prenunciando a alegria e bem-aventurança do Céu. Após termos jejuado com Nosso Senhor e sofrido com Ele, virá o dia em que ressuscitaremos com Ele e nossos corações Lhe seguirão até o mais alto dos céus; e, após um breve intervalo teremos descendo sobre nós o Espírito Santo, com os seus Sete dons. A celebração de todas essas alegrias prodigiosas nos tomarão Sete semanas, as quais, segundo os maiores liturgistas, não demorarão muito até os futuros e alegres Mistérios da eternidade.

Somos estrangeiros nesta terra; somos exilados e cativos da Babilônia, esta cidade que conspira a nossa ruína. Se amamos nossa pátria e ansiamos por retornar a ela, precisamos ser provados contra as seduções desta terra estranha e recusar o cálice que ela nos oferece, com o qual muitos se perdem. Ela nos pedirá que cantemos as melodias de Jerusalém, mas como, longe de nossa pátria, haveremos de cantar os cânticos de Nosso Senhor em uma terra estranha? 2 Não, não deve haver sinal algum de contentamento em estar cativos, ou devemos permanecer cativos para sempre.

Estes são os sentimentos que a Santa Igreja nos inspira, durante este período de penitência que estamos a iniciar. A Igreja deseja que reflitamos nos perigos que nos envolvem – perigos os quais levantam-se de nós mesmos e das criaturas. Durante o restante do ano a Igreja se regozija em nos ouvir cantar o cântico dos céus – o Alleluia! – mas agora nos sugere que silenciemos nossos lábios para este canto, pois estamos no cativeiro da Babilônia. Guardemos o hino da alegria para o dia do retorno de Nosso Senhor.

Na Septuagésima, portanto, há total supressão do Aleluia, que não será novamente cantado sobre a terra, até a vinda daquele dia de júbilo, quando, tendo sofrido a morte com Nosso Senhor e tendo sido sepultados com Ele, haveremos de ressuscitar com Ele.

Após o Gradual da Missa, ao invés do Aleluia rezado três vezes, os quais nos preparavam para ouvir o Santo Evangelho, ouviremos uma oração de contrição e recolhimento chamada Tracto. Para que os olhos possam ver que o período que iniciamos é de penitência, a Igreja vestirá seus ministros de Roxo. Para nos inspirar a penitência, irá suprimir tudo o que remete a pompa, que lhe é de muito agrado em outros períodos, mas que deverão ser deixados neste tempo.

De tudo isto é evidente que o católico que deseja viver a Septuagésima de acordo com o espírito da Igreja, deve fazer guerra contra a falsa segurança e satisfação própria, que são tão comuns em almas tíbias e que produzem aridez espiritual. Aquele que não sente necessidade no combate e na luta a fim de perseverar e realizar progresso na virtude, deve temer que não esteja sequer no caminho do Reino de Nosso Senhor, que é vencido apenas por meio da violência 3.

Aquele que se esquece dos pecados, outrora perdoados pela Misericórdia de Deus, deve temer ser vítima de uma perigosa ilusão. Nestes dias, que devotemos grave contemplação às nossas misérias e obtenhamos, do conhecimento de nós mesmos, novos motivos de confiança em Deus, que, apesar de nossos pecados e misérias, Se digna a tornar um de nós, para nossa redenção.

Ano Litúrgico – D. Prosper Guéranger.
Tradução e adaptação por um Congregado Mariano.

  1. Décima Sexta Homilia.
  2. Ps. CXXXVI
  3. Mat. XI, 12

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